quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Por fim, não houve dor de partida.




Eu te observava distribuindo as louças na mesa, ordenando ou trocando as suas ordens, entregando-me o jornal diário. Olhando-me com os olhos nulos depois de anos com brilho, sempre com o mesmo olhar longe, como se o que visse não estivesse ao seu redor, como se guardasse no fundo do olhar algum plano, alguma história em andamento. Tu não sabias mas eu, sempre soube.
Sei que acordava no meio da noite com um feixe de luz riscado na escuridão do quarto, apalpava o meu lado da cama e sentindo-o vazio, pensava que eu deveria ter ao menos fechado a porta para disfarçar minha falta de vontade em ficar. Sei que fingia estar dormindo e até mesmo sonhando, quando não tirava os seus ouvidos da lentidão dos meus passos que rondavam a casa em busca de respostas, faltas e voltas. Sei que quando eu saia para o trabalho você ajeitava a casa de uma outra forma, tirava os vasos de flores de cima da mesa, recolhia as canetas que eu havia deixado espalhadas pelos cantos, abria mais as janelas, respirava mais ar puro e antes de eu chegar voltava cada detalhes ao seu local inicial. Sei que quando eu voltava, você esperava ouvir minha voz cansada invadindo todos os cômodos reclamando sobre pequenos acontecimentos do meu dia, para levantar do chão e parar de sonhar com um marido mais românticos ocupando o meu lugar na cama, com passeios ao parque e com filhos rondando suas pernas a pedir por colo. Eu sempre soube.
Não houve dor, é claro que não houve. De seus olhos não verteram lágrimas, suas bochechas mal empalideceram quando a descoberta chegou aos seus ouvidos e suas mãos, elas não tremiam quando se desfez da aliança quase unida ao seu dedo.
- Como foi que descobriu?
- Eu sempre soube. - Fraquejei na falta de palavras. - Não lhe importa como. Eu apenas sei.
O silêncio invadiu todos os cômodos, os pássaros pareciam ter parado com as suas cantorias, os ponteiros do relógio aquietaram-se durante aquele instante, não havia o que fazer. Os nossos olhos, perdidos naquele estranho diálogo, não souberam para onde olhar. Nossas bocas encerraram a pequena troca de palavras, sem se fecharem totalmente. As respirações nem se alteraram. Já esperávamos por este fim.
Te ajudei a carregar as malas, chamei um táxi e até me preocupei em não demonstrar minha falta de dor com essa sua partida-sem-volta. Desviei meus lábios dos seus e quando o carro que te levava acelerava avenida adiante, fechei meus olhos para não ver sua mão comprimida no vidro e seu olhar fixando a última imagem da nossa casa no seu interior.
Não houve dor. Houve apenas uma dúvida. Por ela não saber que eu não era apenas personagem e sim, narrador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário