domingo, 16 de janeiro de 2011

Atravessando a rua calmamente dedicava-lhe cada passo inseguro para o desejo de lhe encontrar novamente. Eu nem sei o sei nome, pensava, mas a cor dos seus olhos eu sei. Nas manhãs de domingo daquele fim de verão, enquanto escrevia distraída, viajava de olhos fechados para um mundo onde só a nossa música que tocava. A música que nos unia, você também sabia que ela era nossa e descobria-me como eu sempre quis ser aos seus olhos. Com dificuldade eu voltava para a realidade. Passava as minhas mãos em minhas coxas, no meu ventre, nos meus cabelos. Abraçava-me e sussurrava baixinho abafando minha voz rouca nas cobertas o que eu te diria se você viesse e encontrasse a melodia que em mim reinava. E você veio. Deixando-me cheia de dúvidas, sem saber se era o ponteiro do relógio que havia parado ou se era eu que havia me perdido no tempo, querendo não saber voltar, querendo permanecer ao seu lado. Não havia motivos, não precisávamos de motivos, era este amor ardendo em nossos peitos e só. Como carícias ao som da nossa melodia. Construímos um espaço no interior de nossos interiores e guardávamos cada um em seu lugar, você no meu e eu no seu. Destruímos alguns muros que nos dividia e ardia em nossos peitos cheios de dúvidas. Agora entre suspiros em multidões barulhentas, sorrisos discretos em espelhos que refletem a solidão do cômodo, paramos de colorir os dias. É este amor ardendo em meu peito e só. Agora somente no meu. As luzes estão apagadas. A lua já chegou e o fim do verão também. Os móveis estão cobertos de pó. Os meus passos caminham com medo de um reencontro. Seus olhos brilham mesmo sabendo que estou trancada em um mundo descolorido que criamos juntos. Respiro fundo, procuro a fragrância das flores mortas que você me deixou, tento encontrar alguma nota atrasada da melodia que se silenciou e nada. Nada mais sobra desta noite estrelada, nem um simples sonhar com novas melodias que os meus ouvidos nunca ouvirão.

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